It’s only rock’n’roll
Martha Medeiros
São muitos os momentos legais do filme O Homem Que Copiava, detalhes para serem percebidos, nuanças, experimentações: pode-se dizer que o filme é, do começo ao fim, excitante. Mas tem um pico. Tem um momento em que a câmera corre, o Lázaro Ramos corre, a adrenalina corre e a gente tem vontade de disparar junto: é quando entra o som do Creedence. O rock é a ovelha negra da música e sobrevive de sua má fama. Frank Zappa certa vez disse que um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler. Decretou o analfabetismo de toda uma geração, enquanto Elvis Presley não estava nem aí: “Não sei uma nota de música. E nem preciso”.
O rock não é mesmo a música mais criativa do mundo, mas tem a seu favor o fato de não ser apenas música. Existe toda uma provocação que a eleva (ou rebaixa, como queira) a outro tipo de categoria. Não é trilha sonora para meditar, relaxar, introverter-se, ouvir no elevador ou numa sala de espera. É visceral. Quem gosta, adora; quem não gosta, odeia. É da categoria “barulho na certa”.
A maioria das músicas, em seus mais diversos gêneros, provocam reações internas, na alma e no coração. São absorvidas não só pelos ouvidos como também pela pele, produzem um leve arrepio e se instalam dentro. O rock não se assenta tão facilmente. O rock entra e sai, entra e sai, e analogias são permitidas, fique à vontade. Provoca reações físicas mais nervosas. Desperta em nós o tarado, o revolucionário, o selvagem, o irreverente, o imoral, o infantil, o louco. O jazz, por exemplo, desperta em nós o sofisticado: é um gênero mais nobre, tranquiliza os ânimos. Sofisticação é ótimo, mas para esquentar os tais ânimos, nada como duas guitarras, baixo e bateria.
O rock cativa pelo que tem de incômodo, vibrante e sexy. Já virou um clichê dizer que ele é mais atitude do que música, e se formos ampliar isso para a vida fora dos palcos, podemos dizer que Elis Regina foi mais roqueira que Paula Toller, mal comparando. Assim como são “roqueiros” Quentin Tarantino, Andy Warhol, Angelina Julie, Michael Moore. O jornalista Paulo Francis achava que rock era música de jeca, mas era outro que tinha uma postura muito rock’n’roll, mesmo sendo o rei dos eruditos.
Esta crônica é a troco de? Hoje é dia internacional do rock. E por amor aos Beatles, aos Rolling Stones, à Jovem Guarda, a Rita Lee, a Lou Reed, a Janis Joplin, a Tina Turner e, lógico, a Creedence, resolvi fazer uma homenagem a este estilo musical que sobrevive apesar de seus altos e baixos e com uma acirrada concorrência – não é mole o que tem de gêneros alternativos e inventivos disputando espaço com o rock. But I like it.
Domingo, 13 de julho de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.